sábado, 28 de abril de 2018

Celebração da Paixão de Jesus Christo entre os Guaranys (Março de 1818)


A CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO ENTRE OS GUARANIS.
(Episódio de um Diário das campanhas do Sul.)
Por José Joaquim Machado de Oliveira, Sócio efetivo do Instituto.

Os Americanos devem procurar na historia, nas scenas da região que habitam, os quadros, os similes, as imagens, para compor ou adornar os seus escriptos !.... PANORAMA.

I.
A Capella de Alegrete.

No outono de 1818, o acampamento de Alegrete, que fora improvisado em dois dias na margem esquerda do Ibirapuitã (1) pela famosa coluna do General José de Abreu, depois que separou-se da divisão do General Curado, ia-se metamorfoseando em capela, que na Província de S. Pedro é o preliminar de grandes povoações. O primeiro assento do arraial militar foi na ourela do rio, onde este descreve a sua maior sinuosidade, e tem no centro o Passo-geral, que é um ponto convergente de diversas estradas e caminhos, que vem de diferentes povoações e estâncias da campanha. Mas, si esta localidade era azada para o alojamento temporário de guerreiros, que, fatigados de longas marchas, de vigorosas escaramuças contra as hostes de Artigas, e do regido serviço do acampamento do Quaraí, anhelava um paradeiro, que pusesse termo a tamanha lida, não preenchia o objeto e as esperanças do chefe entre-riano, cujo pensamento era erigir uma povoação, que simbolizasse á posteridade seus feitos de armas, e chama-se a civilização e o comércio ao país, que abrangia suas grandes estâncias, e formava o seu melhor apanágio. Esta empresa tinha por fundamento um direito tradicional, que competia aos generais continentinos no cabo de suas campanhas, e para perseverar a extensa autoridade de sua temível espada no remanso da paz e fora das contendas marciais.

(1) Rio de Pau-vermelho, ou do Angico, na língua Guarani.

A divisão do General Curado, depois da celebre batalha de Catalán, retirara-se para a margem direita do Quaraí, distinta e pujante com os louros dessa batalha, e das de Arapeí, Missões. Carumbé e Ibirocaí, depois de expelir para além dos confins da província as hostes de Artigas, e de em três meses recuperar o extenso território desde Missões até Quaraí, de que o inimigo se havia assenhoreado com incrível velocidade. Convinha, porém, expurgar completamente de aquém do Uruguai essas hordas barbaras, que tão devastadoras e infensas tinham sido ao solo ocupado, e que de novo tomavam nos campos de Montevideu uma atitude hostil e ameaçadora. A divisão pois teve de deixar aquela posição; e a coluna Abreu, que tão gloriosa parte tivera naqueles sucessos, a substituiu na duplicada tarefa de defender e segurar a fronteira. Seguido de seu ajudante, a quem apelidara com o titulo científico de – engenheiro de acampamento –,  e menos por sua capacidade profissional, do que para bem merecer a categoria de fundador de povoações, o enérgico chefe passava as manhãs na colina mais vizinha do Passo-geral a estender a sóga (2), com que traçava instintivamente os cimentos da futura capela.

Do Passo-geral começa a erguer-se uma colina, que a pouca distancia, e como sua primeira ondulação, entra e se confunde na coxilha sobranceira e paralela à margem ocidental do Ibirapuitã, e que se desdobra por uma extensão imensa até o encontro da grande Coxilha de Santa Anna, que vai terminar no Uruguai, alimentando com fontes perenes os dois Ibirapuitãs classificados em guaçú e chico (grande e pequeno), o Inhanduí, o Ibirocaí (rio de pau de canoa), todos tributários do grande Ibicuí (rio de areia), um dos maiores membros do sistema fluvial da província. É nesse risonho sítio que se edificou a atual vila de Alegrete, para cujo fundamento contribuíram o prestigio dos heroicos feitos de armas do General Abreu na guerra contra Artigas, e a sua autoridade militar, elementos estes de que sempre se lia de ressentir aquela povoação.

(2) Cordel comprido de couro, que se ala no animal, que sequer conservar preso em lugar onde possa pastar.

Já das vizinhas matas se derribavam os angicos, os ipês e os torumans seculares, e das ribas pedregosas do Ibirapuitã desapareciam, como por efeito de incêndio, as toceiras do santa fé (3) e o flexível caraha (4) para a construção das casas, e da igreja onde se devia recolher e adorar a imagem da Virgem Aparecida, depois do seu miraculoso resgate do poder dos artiguenhos, que a tinham arrebatado da capela de Inhanduí, quando em suas primeiras correrias incendiaram aquela sucursal, e que merecia particular veneração do chefe da coluna por tê-lo (como ele dizia) livrado sempre das balas inimigas.

Do devoto serviço de traçar as dimensões da igreja compartilhava o sisudo capelão da coluna, que, com uma fisionomia bíblica, e sem alterar o seu andar grave e solene, sempre de acordo com o seu carácter místico e balofa corpulência, olhava o trabalho através de dois grandes vidros, que lhe mascaravam a frente, e indicava com o dedo engastado num ingente anel os pontos que devia abranger o recinto do santo edifício.

Aventureiro no Continente, e por especulações simoníacas entre um povo generoso e ingénuo, cheio de fé e de crença, o bom Padre, a pretexto de auxilio para a construção de uma igreja em país além do Atlante, e cujo orago, por seu assenso manifestado milagrosamente, como ele só afinava, o havia incumbido dos aprestos para essa obra pia, granjeava, mediante o seu sacerdócio impuro, e com uma consciência elástica, um pecúlio em moeda e bestas para o próprio passal. Uma copia viva do polposo Gil Peres de Lesage, mesmo em seu acanhado sensório, nesta criação faceta da natureza o pincel do caricaturista não dependia dos traços de um pensamento fantástico para expor aos dilettanti uma composição risível, um completo exemplar para uma nova epopeia cómico-burlesca.

(3) Uma espécie de gramínea com que se cobre as casas.
(4) Outra gramínea, que tem a flexibilidade do vime.

Em quanto os aventureiros entre-rianos, dirigidos pelo seu famoso cheio, lançavam os fundamentos da capela do Alegrete, a companhia dos naturais lanceiros com o seu capitão Chico, que formava uma parte integrante da coluna Abreu, e com ela compartira os louros, que a fortuna da guerra dispensara com mão larga a esse general, construia um apêndice da capela, que devia servir para o seu alojamento sob o titulo de aldeia. Não era sem o concurso da gente da raça guarani, que se empreendiam essas povoações nas vastas e remotas campinas do Continente. Submissos no trabalho por mais rude e assíduo que fosse, nimiamente sofredores nas privações, e pouco exigentes no serviço dos brancos eram os guaranis considerados como a parto indispensável e mais interessante dos elementos materiais que entravam na formação desses estabelecimentos; sendo para tal fim atraídos por promessas falazes, por ajustes leoninos, de que só se realizavam os deveres da parte contratada.

Mui suscetível de impressionar-se dos princípios da religião, do sentimentalismo e do maravilhoso; sugeria a uma intelectualidade abstrata; de uma compleição indolente, linfática; sem energia, sem os improvisos, a penetração, o fogo de um génio ardente audacioso, a tribo guarani recebeu dos seus primeiros civilizadores, os Jesuítas, com um preceito divino, a doutrina insidiosa e infamante, que lhe prescrevia, como a uma raça banal e maldita, a servidão e a ignóbil sujeição aos brancos. Esta herança fatal e cavilosa tem sido transmitida, como um legado sagrado, de geração a geração... e o será até a consumação dos séculos! Seus pais a herdaram dos Jesuítas, eles a legaram a seus filhos com toda a sua perfídia original, e estes não curaram de alienar de seus descendentes tão abjeta condição. Raça degenerada pelo homem civilizado, por ele prostituída, votada sempre à escravidão e à ignomínia, terá de permanecer até a extinção do seu último individuo neste estado de degradação e aviltamento, seja pela sua apoucada inteligência, ou por essa preocupação tradicional do anátema divino, a que supõe-se condenada.

Vitima de uma civilização errónea e corrompida, proscrita, aniquilada já, reduzida a pequenos grupos nessas povoações teocráticas do Uruguai, que formam uma parte dessa criação ciclopeana dos Jesuítas na vasta região do Guaira, ou amontoados em alguns recantos das povoações e estâncias da campanha, ou sem habitação fixa, levando uma vida nómada ou selvática nos campos, e nas extensas florestas da serra geral, rojam na miséria, e na indolência e ociosidade; e, como a horda de charruas e minuanos, disputando com as matilhas de chimarrões (5) a posse da avestruz e do poldra da bagualada (6) com que se devem alimentar, ou, em fim, estimulados pela fome e nudez entregam-se á rapina nos campos , de cuja propriedade primordial foram atrozmente esbulhados: e é desta condição degradante, que fica muito abaixo da que lhe competia em relação à sua origem livre, e á sua índole dócil e pacifica, que provem o antagonismo natural e indefinido do índio contra o branco, e essa dissimulação e ar de infidelidade que se discrimina em seu procedimento, quando se acha ao serviço de outros que não sejam os de sua raça, aos quais trata com as mais puras e leais afeições, o lhes procura todos os meios de formar o seu bem-estar.

Pouco distante da colina em que se traçava a capela de Alegrete, estende-se outra menor, separada daquela por uma quebrada (garganta) do terreno, em cujo fundo serpeava uma sanga (sanja), que ia abicar no Ibirapuitã, e servia de esgoto ás enxurradas. Esse sitio de menor superfície, e em gradação mais inferior, foi o designado para o alojamento da companhia de lanceiros, que ao depois tomou o nome mais significativo da aldeia. A quem não conhecesse o indeclinável divórcio, que subsiste entre as duas raças, esse muro de bronze que as separa, e que só há de desmoronar-se com a extinção dos indígenas; só pela simples comparação desse local com o da capela, lhe seria manifesta essa deplorável rivalidade, que por três séculos tem enchido de acerbas dores os corações bem formados. Em breve tempo fantasiou-se ali um grupo de copes (7) com suas ramadas na frente, e a cujo delineamento e obra presidiram a confusão e a negligencia. 

(5) Bandos de cães bravios, vagando nos lugares onde pasta a bagualada.
(6) Manadas sem numero do animal cavalar, que andam montadas e sempre a corso com incrível velocidade.
(7) Pequenas cabanas construidas de madeira e palha, em que habitam os índios guarani.

Além da necessidade, que pungia os guarani para a fabricação do seu alojamento, de se garantirem da intempérie das primeiras geadas do inverno, que já em Abril começam alvejar os campos ; cumpria-lhes também celebrarem a paixão de Jesus Cristo na quaresma daquele ano, segundo as formulas praticadas pelos jesuítas, e que lhes foram transmitidas com zelo, perseverança e acatamento. Esta piedosa comemoração, interrompida pela guerra com dor mística dessa gente, devia exercitar-se então em grande aparato, e com todo o apuro de sua dedicação ao Crucificado, menos por intrínseco sentimento de crença ortodoxal, do que por imitação e costume tradicional; convencendo-se devotamente de que, quanto mais se manifestassem contritas as consciências, e votadas a toda a expiação; quanto mais compungentes fossem suas oblações propiciatórias, melhor aplacariam a cólera divina em que supunham ter incorrido pela involuntária interrupção da serie ânua desses atos.

A religião, na fraca e acanhada inteligência dos guarani, torna-se para eles o mais forte, e por assim dizer, o único habito moral da sua vida: o objeto mais essencial que ela lhes apresenta, e que lhes sugere a mais escrupulosa atenção, é o culto explicito das imagens exercido com estrépito e aparato singelo; e o ministro deste culto, que eles olham como o dispensador das graças celestes, que pode pela forca maravilhosa de suas orações, e interposição de oferendas, amenizar a intempérie das estações, neutralizar os males físicos e aflições da humanidade, fazer abundantes os frutos da terra, e predispor o caminho para a felicidade eterna atrai facilmente as suas mais vivas e ternas afeiçoes, e tem sobre seus ânimos um predomínio exclusivo. É assim que com esta suscetibilidade ascética fundaram os jesuítas esse predomínio, e lhe revestiram de tal consistência, que, atravessando os tempos e afrontando a luz da civilização, ainda deve preponderar até o desaparecimento do ultimo individuo genuíno da raça.

II.
O Concurso festivo.

O boato da ereção da capela de Alegrete com a aldeia acessória, e de que os guarani da coluna Abreu se propunham a restabelecer ali a celebração ânua da paixão de Jesus Cristo, tinha divagado de estância a estância, de povoação a povoação, e chegado mesmo ás sete Missões do Uruguai, essas reminiscências verminosas, e padrões seculares do imenso poderio dos filhos de Loyola.

A par dessa noticia ia medrando a fama das proezas bélicas desse chefe, que por muitos anos teve a vitoria atada aos tentos do seu lombilho (8), e que restituiu heroicamente à lide marcial, sucumbindo na batalha de Ituzaingó, os títulos e honrosas condecorações que ela lhe havia brindado com mão generosa. A presença deste bravo e singelo filho do campo enlevava todas as considerações, e atraía todas as simpatias; tinha um absoluto domínio sobre todas as convicções, todos os alvedrios... Como é que se pôde definir esta preponderância deslumbrante, esta espécie de magnetismo, que é propriedade do guerreiro feliz, do homem que melhor sabe reprimir a comoção que sugere a presença do perigo, que sobrepuja a essa alienação rápida que surpreende todas as suas faculdades? Como essa superioridade moral, que tem o seu melhor apoio em factos de armas, e este ar de autoridade, que mais impõe a homens simples, do que aqueles que tem a razão mais cultivada?

Tais noticias puseram em movimento para o Passo-geral do Ibirapuitã numerosos bandos das diversas raças que habitam o departamento de Entre-rios até ás suas mais longínquas paragens.

Não era sem interesse ver uma família guarani em viagem. O seu chefe tinha a precedência na marcha, arriando (9) os cavalos que não eram montados; vestido mui singelamente, envolvida a cabeça em um pano, e cingindo a cintura o inseparável cheripá (10), do qual pendiam a guampa, e a faca encastoada em tangori, apresentava-se apto para voltear o laço e as bolas, e a disparar sobre a bagualada, quando vinha em um cordão incomensurável reconhecer os viadantes, ou sobre a avestruz, que fugia com carreira tortuosa, e equilibrando-se nas asas estendidas. A pouca distancia dele ia a china, mãe da família, cavalgando o animal mais pacifico da tropilha, e cobrindo-lhe a cabeça e as faces um lenço vermelho (panhoêlo puitam), que se confundia com a cor de seu rosto, mais aproximado à linha circular que à oval. Se tinha filhos pequenos, trazia-os engrupados sobre a montaria, e ligados a si com o cheripá; e na sua falta gozava das honras da garupa o perrito mais mimoso da numerosa matilha, que a seguia de perto, o qual se sustinha por si mesmo, equilibrado em sua posição, ainda que a cavalga dura galopasse, pelo habito que tinha de ser assim transportado. Pendiam aos lados do lombilho, e cruzando o assento por baixo do pelego, (11) a maleta e o possoêlo, que continham o vestuário festivo da família; e circundavam o colo esguio do paciente animal rolos de sogas, e enfiadas de porongos cheios de água para a jornada. 

Pejado de gelos, e impelido pelo violento e frígido Minuano (12), entrava o inverno despojando os salsos e as timboubas de sua linda folhagem, e amarelecendo os campos. No crepúsculo da tarde já não se ouvia o saudoso piar da codorna, que agachada na touceira de macega, evitava temerosa as garras do carnívoro chimango, que esvoaçava em redor. Já o garruto e vigilante quero-quero não estendia os seus voos muito além dos banhados, e posto num desplante quase vertical esperava atento o inseto com que se alimenta, e que nos lugares mais relvosos busca abrigo contra os arremessões do Minuano. O cope indiano de Alegrete já acolhia o soldado de formas atléticas do capitão Chico, e sua família; e à porta de sua cabana via-se cintilar com a luz do sol a temível lança, que tantas vezes se enristara contra os artiguenhos, e que aí se hasteava durante o dia, como o marcial distintivo de um lanceiro de Abreu. As famílias guarani, que ocorriam para a piedosa celebração da paixão do Redentor, tinham hospedagem aberta na aldeia: sendo-lhes comum o trabalho e aprestos que procediam esse ato, afim de preenchê-lo sem omissão da menor solenidade, sem deixar-se de observar escrupulosamente os preceitos tradicionais que lhe eram atribuídos, e que os velhos índios tinham bem impressos em sua memoria.

(8) Para bem compreender esta frase local, cumpre saber que nada assegura tanto o ânimo e pujança do cavaleiro do Sul, e firma sua esperança, como o laço que traz enrolado ao lado direito da garupa, e preso a atilhos de couro, a que chamam tentos.
(9) Palavra que equivale a arrebanhar, ou levar diante de si uma ponjão de animais cavalares ou vacuns.
(10) Pedaço de baeta de cor frisante, com que os homens do campo cingem o ventre, e serve para diferentes místeres.
(11) Pelego: pele de cordeiro que serve de cochim sobre o lombilho. Maleta: sacco estreito com dous fundos para conduzir fato. Posoêlo: alforges de couro cru, que se traz sobre a garupa.
(12) Vento do Oeste.

III.
Domingo de Ramos.

Era Domingo de Ramos [15 de Março]; e ao primeiro alvor do dia, depois da chamada militar dos lanceiros, dirigiu-se a companhia, de mistura com os seus hospedes, ao mato vizinho; e, passado algum tempo voltaram para a aldeã processionalmente e conduzindo cada um índio uma grande braçada de folhas da palmeira geribá, que servissem para colmar as cabanas onde se devia exercer o serviço divino durante a semana da paixão, e representar os últimos martírios do Salvador.

Este préstito misterioso, imitando a oração triunfal do Homem-Deus, quando se apresentou às portas de Hyerosolima [Jerusalém], executou-se silenciosamente e com regularidade militar: e os índios, envolvidos nas folhas, semelhavam massas moventes de verdura, que caminhavam para a aldeia por própria ação, a formar os recintos em que se deviam praticar aqueles atos expiatórios. Nesse dia, precedendo a bênção da cabana, que devia servir de santuário naquela solenidade, aí celebrou missa o capelão de Alegrete, anunciando à devota assembleia que ia começar a semana em que a cristandade comemorava a paixão de Jesus Cristo, e devia manifestar-se contrita por piedosos exercícios, e por atos expiatórios de penitencia.

Ao mesmo tempo que se construia a cabana onde se de viam observar os ofícios divinos, outra se elevava á pouca distancia dela para os exercícios flagelatórios daquelles que se dedicavam à penitência afim de aplacar a cólera da Divindade, e torná-la propícia, dilacerando com rudes açoites suas próprias espáduas, e suportando com estoica resignação os mais bárbaros tormentos.

Na tarde desse dia, e em reunião geral dos aldeões apresentaram-se ao seu chefe os que se propunham à penitência. Depois de uma breve elocução da mui acatada autoridade, enunciada no idioma guarani, em que significava quanto seria do agrado da Divindade (Tupâ) a pública e espontânea dedicação a esse ministério expiatório da mais exaltada crença, devido menos a um pensamento de dor moral e de eternidade, que ao de excitar a admiração por um robusto sofrimento nas torturas da flagelação e das macerações corpóreas, dispersou-se a assembleia, tributando, desde logo, deferências e homenagens aos candidatos à representação simbólica do Redentor, e contemplando-os como predestinados por uma inspiração celeste para exercerem as funções mais augustas e religiosas na celebração a que se dedicavam.

O numero dos penitentes era indefinido; mas, dentre eles o que mais duramente se atormentasse, o que mais sangue vertesse nas flagelações que se impunha, e que se sustivesse na mais absoluta abstinência, era o escolhido para representar naquela cena o papel de Jesus Cristo.

Os homens que se apresentavam para tais provas de um fanatismo sublimado ficavam logo separados de suas famílias e sócios; manifestando por este total isolamento que, como se considerassem eles os maiores pecadores, e os que por suas profanações às coisas santas, tinham incorrido na cólera celeste, eram indignos do trato humano em quanto se não purificassem por um modo, que aplacasse essa cólera, e assim fossem restituídos ao grémio dos fiéis.

IV.
A penitência.

Os dedicados a este ministério, que desde logo foram encerrar-se na cabana da penitência, começaram as suas flagelações na quarta feira de trevas. Nus da cintura para cima, ajoelhados, silenciosos, com a cabeça inclinada para o chão, a mão esquerda sobre o peito, e a direita empunhando um látego de couro, com ele descarregavam sobre suas próprias espáduas amiudados golpes com a mais rude impassibilidade, e sem o mais leve indicio de sentimento de dor. Dir-se-ia que estátuas de cobre por um oculto maquinismo figuravam aquele perene movimento.

Dia e noite eram os penitentes empregados neste descomunal exercício, que macerava o corpo, e atenuava as forças; privados de alimento, e assistidos de um servente, que era empregado em fazer sarjaduras nos lugares mais contusos do corpo para evitar a coagulação do sangue. O que via à roda de si o chão mais ensopado do sangue que vertia de suas feridas; o que mais cruamente rasgava as suas carnes, e que mais vezes caía por terra desfalecido, e inanido de alento, deixava entrever em seu aspeto, quando suas dores o consentiam, um ar de vanglória de ser talvez o predestinado para simbolisar o Homem-Deus em seus martírios e sacrifício humano. Ufano com esse pensamento, ele já se afigurava como o mais esforçado vencedor do espírito mau (Anhâ), e como o que mais valentes provas tinha dado do seu desprezo da dor, e por isso com direito à admiração e deferência dos da sua raça, que invejavam tão assombrosa dedicação. A vaidade supersticiosa, ante que a genuína fé cristã, dominava o espírito tão fraco e tão contraído destes filhos singelos da natureza selvagem, que, quando se não pudesse dizer que estavam no seu estado normal, com verdade seriam julgados como induzidos a erro, ou porque entrassem na sua primitiva civilização alguns elementos inspirados pelo fanatismo religioso da idade media, ou porque os sucessores dos jesuítas, abstraídos inteiramente daquela missão, de nada mais curassem que de neutralizar neles os atributos da razão para o melhor complemento dos seus fins. A tribo guarani, tão dócil, de um ânimo tão flexível, tão rica de suscetibilidades sociais, tocou o ponto do começo do seu aniquilamento da extinção dos filhos de Loyola. De sua transição do regime teocrático, austero, porém de absurda prática desses audaciosos doutrinários, para a dura servidão portuguesa, teve o principio a espantosa cadeia de males que o destino lhe lançou, e que a tem arrastado à ultima degradação e miséria.

O dia de quinta feira de Endoencas [19 de Março] foi ocupado nos aprestos para a procissão de enterro, que teria lugar no seguinte, O interior da cabana que servia de casa de oração estava coberto de preto, e sobre uma banqueta alta, construida de varas e revestida de pano branco, via-se colocado um crucifixo entre duas velas acesas, assentadas em castiçais de barro. Outras velas, engastadas em estacas de taquara, bordavam o recinto da casa, cujo pavimento era juncado de folhas de mata-olho; e ao lado direito da entrada via-se presa à parede uma guampa com agua benta e hissopo de cabelo para as aspersões dos que iam visitar o santo albergue, e oscular a peanha do crucifixo.

As imagens do Salvador e dos Bemaventurados, que formam o cortejo celeste, eram obra das mãos dos índios, qualquer que fosse a matéria de que para esse efeito se servissem, Sem as mais superficiais noções artísticas, só com a habilidade que sugere o natural discernimento, e por génio de imitação, fabricavam eles esses e outros muitos objetos com suportável execução, posto que nas imagens se divisassem impressas essas formas características do tipo indígena, essas atitudes e estilos que lhe são peculiares. Assim ó que a copia do gentil e nítido semblante de Santo António era formulada pelo fusco carão de um índio quinquagenário, com todas as suas feições e gestos agrestes, e o cabelo hirto; e o Divino Filho da Virgem de Idumeia, que se assenta nos braços do canonizado paduano, expondo idêntica fisionomia à de uma criança índia, tinha por vestes um ponche de seda orlado com fímbria de ouro, Destas imagens andavam sempre providas as maletas das chinas em suas viagens, e, como os Penates dos Romanos, eram expostas no interior dos copes,
quando os podiam construir para receberem as manifestações devotas da família.

Em ponto do meio dia, e ao rufo surdo de um tamboril coberto de pano negro, que se fez ouvir em todo o contorno da aldeã, começou a reinar o mais profundo silencio.

Tomaram as mulheres uma vestimenta negra, e soltaram os seus longos cabelos de ébano, em sinal de luto e dor, desatando-se de todos os laços sociais e místeres domésticos, e jazendo sentadas em um canto da cabana, imóveis, lastimosas, com as cabeças inclinadas para o chão, e no estado de um absoluto recolhimento moral. Nem o filho pequeno, que choramingava-lhe ao lado por falta de alimento, nem o cãozinho favorito, com o qual é tão meiga e complacente, e que exigia as habituais carícias, a retiravam desse estado de arrobo místico e exagerado ascetismo.

Uma cena tocante ocupou a espectação publica, à noite e depois da adoração do crucifixo, que se executou ao som de uma vozearia estrondosa e fúnebre, c com uma musica sepulcral. Prestada aos pés da banqueta que servia de sobpedâneo ao crucifixo, a índia que excedia as outras em longevidade, desferia um pranto lúgubre e horroroso à maneira das antigas carpideiras nos funerais, e balbuciava algumas palavras no seu idioma, entrecortadas de arquejos e soluços pavorosos. A horrível Sara americana, de guedelhas soltas, por entre as quais mal se enxergava um semblante engelhado e cadavérico, de mãos postas, e deslisando contorsões colubrinas para empregar mais veemência em suas vociferações, extasiava em redor de si uma multidão de povo, estupefacto de um quadro tão assombroso. Via-se nos índios a consternação, o enternecimento, e a contrição idiota que se deriva da impressão de objetos de terror, e não da comoção de uma consciência ascética; e mais de uma lágrima caía-lhe dos olhos misturada de soluços, que em pouco tempo se convertia em pranto geral e contagioso : e nos brancos, o característico do desprezo e escárnio, revelado por um gesto mofador. que de certo daria origem a algum desaguisado entre as duas raças sempre em rixa, sempre divorciadas, se por ventura os índios estivessem menos habituados a sofrer da parte dos brancos o trato mais ignominioso, e injuriosa zombaria pelos atos da sua crença religiosa. A compunção e piedade que a espantosa carpideira ganhava daqueles pelos seus lutuosos acentos e exclamação sibilina, perdia nestes por efeito do seu aspeto hediondo e horrível, e das suas gesticulações mímicas. Os olhos que lacrimosos contemplavam o símbolo do nosso resgate, em que
foi vitimado o Salvador, não podiam exprimir um pensamento doloroso, quando da cruz desciam descridos para a forma mosaica da tanajura secular.

Por um estudo continuo e aprofundado sobre a índole e compleição dos indígenas, e sobre suas acanhadas faculdades intelectuais, entenderam os jesuítas, seus primeiros civilizadores, que maior impressão fariam neles as ideias, que fossem representadas por objetos materiais, por ações físicas, que pertencem à possibilidade do homem, do que o pensamento moral, esse complexo de partes abstratas, que só compete ao domínio da potencia intelectual.
Queriam eles que os princípios religiosos falassem antes aos sentidos do que à imaginação; e é por isso que dos preceitos da crença, de que foram imbuídos os guarani, compreenderam estes que, materializada a divindade do Homem-Deus, ou transubstanciada em faculdade discernível, teve de achar-se na terra em luta com o poder infernal, que com este guerrearam as coortes celestes, vindo por fim a sucumbir o Filho de Deus, e a ser supliciado na cruz.
Preocupada cem estas insinuações erróneas, a deforme energúmena engrasava em sons inarticulados, monótonos roucos e lúgubres, algumas frases isoladas, que no próprio idioma exprimiam os essenciais atributos do Redentor, a dor dos seus martírios, e a cólera e indignação
pelo suposto triunfo do espírito das trevas, e a consumação do cristicídio. Nesta emfática e lastimosa apóstrofe ouviam-se repetidamente as palavras: - Christó opá anhundojára!.... omanó catu!! - (Cristo foi morto pelo demónio!.... sim, padeceu morte!!); e a elas seguiam-se vociferações horríveis, e exclamações descomunais, que produziam terror e espanto no animo dos índios que ali se achavam. Esta cena estranha, que ao mesmo tempo inspirava sentimentos opostos. de dor e de riso, durou algumas horas; substituída a carpideira, que a representava, depois de rouca e inanida de forças, por outra que tinha o mesmo devaneio de compungir o auditório, e dessarte fazer jus ao salário estipulado para semelhante exercício, o qual ordinariamente consistia em um trago de canha (copo de aguardente de cana) oferecido na pulperia do Pechincha, donde se retirava ébria e possessa de espírito mui diverso daquele que uma hora antes lhe ocupava a mente... Que transição !

Em toda a manhã de sexta feira [20 de Março] não se enxergou na aldeia pessoa fora de casa: parecia que havia sido abandonada dos seus habitantes e hospedes, ou que tivera lugar um daqueles movimentos imprevistos e rápidos, a que os Cossacos de Abreu estavam habituados para obstar alguma tentativa ou correria das hordas de Artigas. Talvez que se pudesse dizer que dominava ali o silencio dos túmulos, se os que se haviam dedicado desde quarta feira de trevas ao flagelo penitenciário suspendessem tão mortificantes provas de fanatismo brutal. O som compassado e surdo dos açoites, e o zunido rouco e monótono das cigarras, que, pousadas no espinilho (13), ainda sussurravam sua despedida aos últimos dias do moribundo outono, era o que ali revelava fracos sinais de lânguido movimento e frouxa vida.

Este exame foi cometido à autoridade militar do capitão Chico, que, para realizá-lo convocou a conselho os oficiais da companhia, os quais, ornados com as insígnias de suas graduações, dirigiram-se para a cabana expiatória, e aí aventaram esse caso com a consciência de austeros julgadores, que vão a decidir da existência de um grande culpado. 

Instituído, pois, um minucioso exame sobre provas tão barbaras, designou-se definitivamente o mísero paciente, sobre quem deviam ainda pesar novas e severas flagelações. Estremado ele dos seus consócios do martírio, deu-se por finda a penitencia, e, depois da retirada pesarosa dos outros candidatos à representação do Salvador, por não terem obtido a preferência, lançou-se-lhe uma tipoia (14) do cor negra, cingindo-lhe a cintura um cordão de couro da mesma cor.

Apenas anoiteceu, a repetição da scena das carpideiras excitou outra vez a curiosidade piedosa do povo guarani, que corria em grupos para o sitio onde ela ia reaparecer. O crucifixo, que se colocara sobre a banqueta da santa cabana, foi substituído por uma cruz preta, assentada em peanha de barro, e de cujos braços pendiam tiras de pano branco.

(13) Arbusto pertencente á família das Mimosas.
(14) Vestimenta talar, á imitação da antiga tunica, que as mulheres Guaranys trajam em casa.

V.
A Procissão de enterro.

Eram 10 horas da noite de sexta-feira. O tempo estava sereno, e o claro da lua mal podia penetrara densidade do vapor atmosférico, que, subindo, aglomerava-se sobre o circuito da aldeia, e caia em moléculas subtilíssimas humedecendo a terra. Ouvia-se ao longe os agudos acentos do jaguarete pousado no mais alto angico, e os rugidos do guarachaim em seu curso noturno.

Um sussurro inqualificável, e o separar-se para os lados em duas partes o povo que tinha afluído para o contorno da cabana consagrada ao santo ministério, denunciaram que ia aparecer a procissão do enterro, longo tempo esperada. Todas as vistas, todas as atenções convergiram para aquele ponto; e a presença acatada do chefe de Alegrete, trajado de aparatoso uniforme, impôs maior silencio do que aquele que devia sugerir a representação fúnebre de um ato, que os guarani profundamente reverenciavam.

Precedia ao préstito funeral uma cruz alta feita de taquaruçú, e hasteada por um menino envolvido numa vestimenta roçagante de cor preta, e cobrindo-lhe a cabeça um pano branco, sobre o qual assentava uma coroa de espinhos. Aos lados da cruz. e com os mesmos envoltórios, marchavam dois meninos com ciriais de taquara, em que ardiam velas de cebo. O exterior da procissão era guarnecido por duas alas de lanceiros, em traje de guerra, em numero de 50 a 60, empunhando ciriais semelhantes aos que iam aos lados da cruz que abria o préstito. No intervalo das alas movia-se lentamente, e com um ademan devoto e melancólico, uma numerosa fileira de meninas, vestidas de túnicas de pano branco, com os cabelos soltos, e coroas de espinho sobre suas cabeças, que se inclinavam para o chão: cada uma delas conduzia em suas mãos uma forma simbólica, e em miniatura, dos objetos que figuraram no martírio e paixão do Crucificado, e dos atributos físicos e morais, que se reuniram à sua essência divina. Viam-se nesta série, entre outros emblemas, o galo que com o seu tríplice canto revelou Pedro a culpa da sua estranha negativa, os trinta dinheiros que recebeu o discípulo traidor, o azorrague, a lança de Longuinhos [Longino], a escada do descimento, a coroa de espinhos, os cravos; assim também os peixes e pães reproduzidos nas bodas de Caná, a espada com que se armou contra o espírito das trevas, representado por um dragão de colo entonado, e as insígnias que lhe compeliam como o Rei profetizado da Judeia. Fechava a procissão um grupo de músicos, garganteando uns a ladaínha com uma voz chula e dissonante, e outros fazendo guinchar com sinistro alando algumas rabecas, obra de suas próprias mãos ; levando os que iam na frente deslocadores, e pregados no dorso, grossos cartões de musica, representada por grandes notas sobre pedaços de couro.

Como uma parte adicional da procissão seguia-se logo outro grupo armado de lanças, em cujo centro se distinguia, com as mãos atadas, diadema de espinhos na cabeça, e túnica preta, o miserando penitente, sobre quem tinha recaído a escolha para simbolizar o Homem-Deus, e que se pavoneava de que sua constância e sofrimentos assombrosos lhe dessem a preferência de apresentar-se em holocausto e vitima propiciatória ao Criador para remir a criatura. Com passos mal seguros, e aspeto aonde se vislumbrava entre os sinais de rudes tormentos o entusiasmo supersticioso de ter chegado a merecer a atenção publica, e a especial veneração dos da sua raça, pela firmeza e resignação com que se houve na severa flagelação de que saíra, caminhava o martirizado representante do Salvador, a quem os da escolta que o cercava não poupavam azorragadas, violentos arremessões, bofetadas e insultos ignominiosos.

Com este grupo ia um pregoeiro que, sempre que o prestito suspendia a sua marcha, apontando para o martirizado, e com atitude pujante, exclamava com detestável pronunciação a forma sacramental— Ecce homo —. Ouvindo esta exibição, o misero preconizado por um doloroso esforço estirava o corpo, elevava a cabeça (querendo sobre sair ao grupo que o circulava, e em um desplante ridículo, trabalhando para arremedar um gesto bíblico, manifestava a enfática alucinação de que se achava dominado por haver atraído a vista dos espetadores, e persuadir-se que os tinha ensopado em sentimentalismo religioso, o abismado em profunda consternação. Pelo contrario, se pelos gestos e sinais externos podem-se discernir os sentimentos íntimos, os brancos com um sorriso mofador revelavam um pensamento de dó por tão miseráveis apreensões e preconceitos, e os índios faziam só apreço do desgarro do energúmeno, e da gesticulação horrível com que ele suportava os golpes do azorrague.

Após este grupo, e pondo fecho a todo aquele espetáculo, ia uma mulher desfalecida nos braços de um índio, que representava a mãe do Crucificado, sustida pelo Evangelista que assistiu à sua paixão. Tinha por séquito uma multidão de mulheres, que levavam ao seu lado seus filhos menores de mãos postas, e que caminhavam vagarosamente com luzes nas mãos lavadas em prantos, e soltando arquejos e soluços. Em presença desta cena caíam de joelhos os índios que a observavam; e num arroubo extático e devoto batiam nos peitos com veemência.

Depois de um giro prolongado e vagaroso, que durou até a meia noite, dissolveu-se a procissão como por um encantamento, tomando cada comparsa diferente direção confundindo-se na massa dos espetadores.

Conclusão.

Ao primeiro clarão da manhã de sábado [21 de Março], ouviu-se o tambor da aldeia, acompanhado de pifanos, anunciar a aleluia em rufos descompassados e em dissonantes assobios. A cabana da penitencia tinha desaparecido, e em seu lugar hasteara-se um poste elevado, donde pendia um mal formado manequim, figurando o traidor Escariota, que tinha vendido o Divino Mestre; o qual arrancado de sua posição pelo laço de alguns cavaleiros, em poucos momentos foi reduzido a mil pedaços.

Ao tambor, que não cessou de rufar, congregaram-se vários tangedores de viola e rabeca, e em breve tempo o mais desentoado alarido de mistura com festivos hosanas difundiu-se da aldeia à capela de Alegrete; e esta retumbante folia, com um séquito numeroso de mulheres e crianças, trajados de gala, e em cujos fuscos semblantes reluziam a alegria e o contentamento, corria as ruas proclamando a aleluia e recebendo a espórtula de tão festivo anúncio. Depois de feita a coleta, cujos contribuintes eram retribuídos por uma ruidosa fanfarra, o bando folgazão recolheu-se aos seus copes, conscienciosamente pago de ter, segundo as regras e preceitos tradicionais da sua primitiva associação, desempenhado com o possível escrúpulo a celebração da paixão de Jesus Cristo.

* * *

Fonte
José Joaquim Machado de Oliveira, "A Celebração da Paixão de Jesus Christo entre os Guaranys (Episódio de um Diario das campanhas do Sul)", in: Revista Trimensal de História e Geographia, tomo IV (2.ª edição), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1863, pp. 331-349 [nota: 1.ª edição em 1842]

A transcrição foi feita modernizando a ortografia e com anotação cronológica tendo por base a data de 22 de Março como o Domingo de Páscoa em 1818.


sábado, 14 de outubro de 2017

Memória da Tomada dos Sete Povos de Missões da América de Hespanha (Gabriel Almeida, 1806)



MEMORIA DA TOMADIA DOS SETE POVOS DE MISSÕES DA AMERICA DE HESPANHA
Que hoje se acham annexos ao dominio do principe regente de Portugal, nosso senhor: escripta em Lisboa, no anno de 1806, por Gabriel Ribeiro de Almeida.

Governava a capitania do Rio Grande de S. Pedro o tenente general Sebastião Xavier da Veiga Cabral, quando no anno de 1801 se declarou a guerra entre Portugal e Hespanha. Logo que lhe chegou esta noticia por Pernambuco, mandou pôr editaes, para que os povos conhecessem a nação hespanhola por inimiga. Não ha palavras com que se expresse o alvoroço de todos os habitantes d'aquella capitania, na esperança de fazerem com as armas na mão uma divisão de limites mais vantajosa. Recebida emfim a certeza por officio do vice-rei do Rio de Janeiro, feita a declaração da guerra com a formalidade do costume, mandou o governador apromptar as tropas, tanto pagas como milicianas; mas reflectindo que o meio mais essencial de conservar a disciplina nos corpos militares, e individualmente a satisfação de cada soldado pelo bem do real serviço, é tel-os bem pagos de seus soldos, e vestidos de seus uniformes, e que desgraçadamente aquella tropa estava reduzida á ultima miseria, não tendo por si mais que a sua coragem, pois que a thesouraria do Rio de Janeiro, por quem n'aquelle tempo eram pagos, lhe devia distinctamente doze para quinze annos de soldo, e outro tanto ou mais de fardamento, por unico recurso contou com a disposição dos povos para vestir a tropa, pois os via tão desejosos de guerra; deu as ordens aos chefes dos regimentos, tanto ao coronel Manoel Marques de Sousa, como ao tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, que convocassem as pessoas principaes do povo, e lhes expozessem a necessidade que havia de soccorrera tropa para marchar n'aquelle rigoroso. inverno a campanha. O mesmo espirito de patriotismo, que havia feito que os povos gostassem entrar voluntariamente na guerra, fez com que em poucos dias se vestisse a tropa; porque, os que não podiam dar dinheiro davam pannos, hois, cavallos, carros e escravos, offerecendo aos trabalhos tudo em beneficio da tropa e do estado, eisto continuaram a praticar em toda a guerra.

Dividido o exercito em dois corpos, o fez marchar para as fronteiras respectivas, uma do Rio Grande, e outra do Rio Pardo; a do Rio Grande, commandada pelo coronel Marques de Sousa, se compunha de oitocentas praças, a maior parte milicianos; e a do Rio Pardo, commandada pelo tenente eoronel Patricio José Corrêa da Camara, se compunha de setecentas praças, tambem a maior parte milicianos.

N'esta mesma occasião chegavam os mais poderosos d'aquella capitania a pedir licença ao governador para levantar companhias de gente de cavallo, e armal-os a sua custa, para sahirem contra o inimigo; e os mais pobres se juntavam em ranchos, e faziam o mesmo: e como todos levavam facil concessão, concorreu para o exercito gente innumeravel e resoluta, com faculdade de passar adiante dos exercitos, e fazer as hostilidades possiveis ao inimigo. D'esta sorte se apresentou n'aquella fronteira um exercito formidavel, não tanto pelo numero dos individuos, como pela disposição dos animes, e isto sem despeza do estado, e a maior parte d'estas tropas milicianas, esta a mais atrevida, robusta e activa nas suas campanhas, em quem os povos confiavam o seu triumpho.

Os hespanhoes, vendo os movimentos dos dois exercitos portuguezes, que marchavam para as raias, abandonaram as guardas, de maneira que já as nossas tropas não acharam nas ditas guardas senão as barracas, que logo demoliram, e começando pela lagôa Merim para o Norte, eram as guardas as seguintes: 1.a, a da Lagôa; 2.a, Quilombo; 3.a, S. José; v4.2, Santa Rosa; 5.a Santa Tecla; 6.a, Taquarembó; 7.a, Batovi; 8.a, S. Sebastião; as duas ultimas para a parte de Missões, e as mais da parte de Montevideo, confrontando com o Rio Pardo e Rio Grande; e da Lagoa Merim para o Sul, no estreito e terra que corre entre ella e o oceano, haviam duas guardas, que foram avançadas pelo capitão Simão Soares da Silva, e o tenente José Antunes, que do Rio Grande sahiram para atacar aquellas guardas, quando marchava o exercito para a fronteira; pois não deixou de lembrar ao governador que podia entrar o inimigo por aquelle estreito entre a Lagôa Merim e o oceano, e vir sorprehender a villa de S. Pedro, na ausencia d'aquellas tropas, cujos officiaes destruiram as ditas guardas, e se retiraram com o despojo que n'ellas acharam.

Retirando-se os hespanhoes das guardas mencionadas, se recolheram e reuniram em um forte de campanha denominado Serro Largo, e alli se fortificaram.

Entre os voluntarios paizanos que se offereceram para ir contra o inimigo, foi um d'elles Manoel dos Santos Pedroso, homem fazendeiro e soldado miliciano; e obtida a licença, marchou com 40 homens, de que se fez chefe, atacou e pôz em fugida a guarda de S. Martinho, e na posse d'esta, passou a saquear algumas fazendas; n'estas immediações se retirou com mais de 100 animaes vaccum e cavallar deixando em abandono aquelle posto; e o capitão Francisco Barreto, aproveitandose da occasião, não se descuidou de pôr immediatamente guarda nossa, pois é principal entrada para Missões. José Borges do Canto, e eu com 40 homens, fizemos a grande conquista de sete povos de Missões, que vou a referir.

O dito Canto tinha sido soldado de Dragões, e antes de ser disciplinado no seu regimento havia desertado, ha bastantes annos, e vivia entre os portuguezes e hespanhoes n'aquella vasta campanha povoada de uma nação de gentios charruas e minuanos, couto e refugio dos criminosos de ambas as nações. O dito José do Canto ora entrava na capitania do Rio Grande de S. Pedro, d'onde era natural, ora nas terras dos hespanhoes,a traficar contrabandos: em uma e outra parte passeava occulto, pois se tinha feito celebre com a sua vida extravagante e odiosa a ambas as nações; e sabendo que havia perdão geral aos desertores, se apresentou ao tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, e pediu licença para sahir a fazer alguma hostilidade ao inimigo; e obtida que foi esta, sahiu por entre as fazendas, convocando alguns seus conhecidos, e incorporou comsigo 14 homens.

Andava n'esta mesma diligencia um tenente da capitania de S. Paulo, chamado Antonio de Almeida Lara, que por seu negocio vivia n'aquella capitania; este tinha comsigo 12 homens, e se incorporou com o dito Canto, e sahindo ambos para a fronteira, chegaram á guarda denominada S. Martinho, onde eu estava destacado debaixo das ordens do alferes André Ferreira, que alli commandava sujeito ao capitão Francisco Barreto, que commadava aquelle districto, e se achava distante duas leguas, e respondia por elle ao tenente coronel Camara.

Na dita guarda me offereci a acompanhal-os, levando em minha companhia 6 camaradas da mesma, e no primeiro dia de marcha encontramos 8 homens, commandados por Antonio dos Santos, que andava explorando a campanha, e unindo-se tambem a nós, com estes completaram 40 homens de armas, com os quaes se fez a conquista, que vou descrevendo.

Entrámos n'esta campanha no mez de Agosto na força e rigor de inverno, que foi a causa da nossa felicidade em todos os successos. No primeiro dia fizemos 10 leguas decaminho, e pela noite ser tenebrosa, tomámos a guarda denominada S. Pedro, sem sermos sentidos, e sem dar tempo a pegar em armas; achamos alli 30 indios, commandados por um hespanhol, que pozemos em prisão, e os indios em liberdade, e os capacitámos que a guerra era com os hespanhoes, e não com elles. Com isto se pozeram em socego, e nos fizeram bons officios; não lhes consentimos saqueio algum por não desgostal-os, e unicamente nos refizemos de cavalgaduras, pois n'este lugar haviam mais de 1,000 animaes, entre vaccum e cavallar, e seguimos a nossa viagem com o designio de voltar quando podessemos dar noticias certas das forças que havia n'aquelles povos.

N'este lugar me pediu o Canto quehouvesse de tomar parte no commando e direcções d'aquella empresa, pois se confundia com o não entendera lingua d'aquelles indios, e eu os ontendia perfeitamente; consenti na proposição, e tratamos consultar mutuamente em tudo quanto nos fosse preciso.

No terceiro dia de marcha avistámos algumas armas muito ao longe, e vimos que se encaminhavam para a nossa parte; fizemos-lhes emboscada em um desfiladeiro, e nos cahiram prisioneiros, sem haver a menor resistencia. Estes homens eram exploradores da nação inimiga, que circumlávam aquella campanha para fazer aviso de toda a novidade que encontrassem. O que os commandava, pela portaria que me apresentou, mostrava o grande conceito que d'elle fazia o governo, e por fim era um insigne salteador, desertor das nossas tropas, chamado João Ignacio, que estava aggregado ao serviço de Hespanha; e logo que foi reconhecido, o conduzimos preso pela inconfidencia e traição. No seguinte dia tomamos o porto denominado Santo Ignacio; aqui havia uma pequena guarda em resguardo de 500 cavallos; n'este lugar fomos instruidos do estado em que estavam aquelles povos pela informação seguinte. Disse-noso que commandava que dalli distante quatro leguas havia uma guarda denominada S. João Merim, onde havia 10 hespanhoes escolhidos e armados, e que tambem havia muita cavalhada, boiada mansa, e gado de munição dos povos, e 60 indios para o seu costeio; e do dito S. João Merim a seis leguas estava um acampamento, que se tinha principiado havia oito dias, e era para disciplinar as recrutas, e para acampar as tropas que alli se haviam de reunir, vindas da cidade da Assumpção, de Paraguay, e dos mais povos além do Uruguay, para marcharem contra os dominios de Portugal, e que aquelle acampamento distava uma legua da capital.

Sabida esta noticia, resolvemos atacar o dito acampamento, para o que essa noite adiantei-me com 20 homens, deixando outros 20, para marcharem na manhãa seguinte com o Canto, e mais gente d'armas. Essa noite puz em cerco a guarda referida, e ao aclarar o dia puz tudo em prisão, favorecendo me o escuro da noite horrorosa tempestade, que facilitou minha resolução; e chegando meu companheiro Canto, que tinha ficado como já disse, cuidámos em viajar, pondo muitas precauções essa noite, para que não fosse algum aviso ao acampamento; marchamos as ditas seis leguas, e nos avisinhámos a elle.

Era este sitio em terreno alto, resguardado de um matoe dois caudalosos arroios, em cujas entradas não haviam guardas avançadas; pois parecia-lhes impossivel entrarem tropas portuguezas sem serem sentidas pelas guardas ou exploradores da campanha, pois d'este acampamento ás nossas raias dista trinta leguas; por este descuido em que estavam foi nossa entrada feliz.

Depois de ter explorado o acampamento, dispozemo-nos para a acção, pois vinha rompendo o dia. Pozemo-nos em linha de batalha a tropa que levámos, que se compunha de quarenta praças, como em outra parte já disse, commandando eu e José do Canto. Haveria, pouco mais ou menos, 500 passos de distancia entre nós e o dito acampamento, e já teriamos avançado a metade, quando, picando a marcha a toda a brida, rapidamente nos fizemos senhores d'aquelle acampamento, sem haver um grito de «armas» nas sentinellas;e como sahissem alguns tiros da barraca do commandante, que era D. José Manoel de Lascano, foi preciso fazer fogo, e sempre houve 14 mortos e bastantes feridos; e da nossa parte houve somente um camarada ferido. 

Havia n'este acampamento 100 hespanhoes de armas, e 300 indios, os quaes ficaram livres da hostilidade d'este assalto, por estar o seu abarracamento algum tanto separado do dos hespanhoes. Alcançada a Victoria, ao aclarar do dia reflecti eu que os indios estavam suspensos, e aproveitando-me da occasião, por ver o susto em que estavam, lhes fiz uma falia no seu idioma, conforme as mais vezes tinha praticado; animei-os, e lhes fiz ver que a guerra não era com elles, e para mais os attrahir, o pouco despojo que havia n'este acampamento, consultando com o Canto, foi repartido por elles, e isto lhes fez tomar o expediente de se unirem ás nossas armas; e vendo-nos munidos d'estes 300 homens, consultamos investir a capital, que estava á vista. Reparti então os novos soldados em pelotões, e avançámos ao dito povo de S. Miguel. Depois despachámos uma parte ao capitão Barreto, dando-lhe conta de tudo circumstanciadamente, e avisinhámo-nos á capital; não a levamos de escalla por ter artilheria, mas pozemol-a em sitio, cujas escoltas e patrulhas, que dirigiamos a elles, a inquietavam em diversos lugares dos seus muros. Este sitio foi posto ás 11 horas do dia, e sc divulgou tanto n'aquellas circumvizinhanças. que, quando foi á noite, achamo-nos com mais do mil indios debaixo do nosso commando. 

No dia seguinte despachamos outra parte, em que davamos conta de estar a capital d'aquelles sete povos em sitio, e que nos viesse soccorro. Apertamos o sitio de tal- fôrma, que, dentro em tres dias, se rendeu por uma capitulação, feita e assignada por nós e o tenente coronel D. Francisco Rodrigo, que alli residia, e governava os sete povos. Entramos n”este povo, tomando d'elle posse, e se retirou o dito D. Francisco para odo rio Uruguay, levando comsigo duzentos homens, que era a guarnição que alli havia.

D'este acontecimento demos parte ao nosso chefe, que era o capitão Barreto, e já eraa terceira, que davamos, sem termos resposta nem soccorro.

Pondo este povo em tranquillidade, dirigi oflicios aos mais povos pertencentes aquella conquista, cujos commaudantes não tiveram duvida em se render, pois viam a sua capital tomada.

Com isto entramos em detalhe de governo, tomando posse dos povos que estavam mais immediatos, que vem a ser S. Lourenço, S. João, S. Luiz, S. Angelo, para cujos povos marchei, deixando com o Canto vinte homens de guarda na capital, e levando comigo outros vinte.

Chegando aos ditos povos, cuidei logo em recolher os estandartes das camaras, fazendo ver que não deviam ser arvorados mais, porque odominio hespanhol tinha cessado, cujos estandartes entreguei ao fallecido governador.

Ainda que as circumstancias da guerra não me permittiam demora no recebimento d'aquelles povos, comtudo sempre falhava um dia em cada povo, e fazia por contentar ao publico, assistindo aos seus festejos, empenhando-me em' contentar aos reverendos curas das igrejas, mostrandolhes muita benignidade, e capacitando-os que seriam respeitados das nossas tropas; e roguei-ihes juntamente que não desamparassem suas igrejas.

Esta politica que usei, foi o motivo dos ditos padres se conservarem no mesmo cuidado d'aquelle grande numero de almas que tinham a seu cargo, não obstante terem o passo livre para seretirarem, segundo as condições da capitnlação e ainda alli se conservaram até a minha retirada d'aquelles povos, que foi em 1805. Acabada a diligenciado recebimento d'aquelles povos, recolhi-me a S. Miguel.

Manoel dos Santos Pedroso, que tinha feito o saque na guarda de S. Martinho, entrava novamente com os 40 homens que o acompanhavam, e chegando ao povo de S. Miguel, como já o visse tomado, pôz-se em consulta com os seus camaradas, e reflectindo eu n'isto, lhe fiz uma falia, que nos reunissimos, pois incorporados todos eram maiores as forças, e que eramos juntamente vassallos de um mesmo soberano. Respondeu-me com palavras equivocas, e no mesmo dia seguiu para o povo de S. Nicolau, que ficava quasi nas margens do rio Uruguay, onde esperou o tenente-coronel que se retirava, fiado nas condições da capitulação, e por consequencia sem susto, e antes de chegar ao rio Uruguay, o atacou uma noite e a seu salvo o fez prisioneiro, e pòz em fugidatodaa genteque o acompanhava, ficando senhor de toda a equipagem, fazendo voltar e conduzir para traz por uma guarda de homens sem pundonor algum, pois o insultaram n'esta conducção para lhe tirarem quanto trazia de precioso.

N'esta occasião chegavamos, eu de tomar posse dos povos, o sargento-mór de Dragões José de Castro Moraes com tropas em soccorro, e o sobredito tenente-coronel hespanhol preso, e todos nos juntámos em S. Miguel. Examinada a causa d'aquella prisão foi respondido que quem tinha feito aquella capitulação não eram os officiaes, e por consequencia o dito Santos mandava preso para o Rio Pardo ao dito tenente-coronel. Esta acção nos foi muito sensivel, mas como já estava o official superior presente, a elle competia prevenir e remediar tudo. O capitão Manoel Carneiro e o tenente Francisco Carvalho foram os que se incumbiram e empenharam a fazer com que os soldados do dito Santos,que conduziamao tenente-coronel, entregassem o que lhe tinham tirado, O sargento-mór Moraes olhava tudo com refinada politica, estudando os meios de escurecer os nossos serviços, e lembrando-se ser o Canto soldado do seu regimento, quiz puxal-o ao esquadrão, etiral-o do commando d'aquella conquista, não fazendo apreço dos nossos serviços.

O Canto, mal costumado na sua vida dissoluta a soffrer e ainda mais com a vaidade de conquistador, cuidou em prevenir-se. e assentou defender-se comas mesmas armas com que tinha acommettido ao inimigo: eu reflectindo que a minha prudencia não era bastante para remediar tantas contraversias, tomei o expediente de passar ao Rio Grande, a dar conta ao governador, não d'aquellas intrigas, mas sim da conquista.

O tenente coronel hespanhol, sabendo que me dirigia a dar esta conta rogou-me lhe conduzisse uma carta, ao que eu não tive duvida, n'ella se queixou do dito Santos ao governador, facto que fui saber no quartel-general. Tomou contada nossa conquista o sargento-mór José de Castro Moraes, não com a regularidade devida, mas como quem estava com a disposição que dissemos; e eu marchei para a villa do Rio Grande, aonde cheguei em occasião que já estava o governador doente; entreguei ao ajudante das ordens José Ignacio da Silva os estandartes, a capitulação, e os mais documentos que levava, como tambem acartado tenente coronel hespanhol. 

O Governador, pesando o valor de nossos serviços, fez n'esta occasião condecorar a José Borges do Canto com o posto de capitão de milicias, e eu em tenente da mesma companhia; e deu ordem para que fosse nomeado para alferes o que fosse demais merecimento dos 40 individuos a quem se devia aquella conquista; e foi nomeado Francisco Gomes de Mattos. Tambem deu ordem o governador para que fosse preso Manoel dos Santos Pedroso, pelo insulto feito ao dito D. Francisco, governador que tinha sido d'aquelles povos; o que não se efféctuou com a morte do governador, que foi d'alli a poucos dias; mas antes, depois de ter dado esta ordem, o mesmo governador o condecorou como posto de tenente de milicias, por condescender com a vontade e proposta do tenente coronel Camara, que mandou ao furriel José Maria com uma promoção ao Rio Grande, para que a assignasse antes de morrer, em cuja occasião foi incluido o dito Manoel dos Santos. 

Eu e os meus camaradas bem conheciamos a José do Canto, que era homem intrepido e valoroso; porém, ha muitos annos desertor, e por consequencia indisciplinado, não sabia do terreno, ignorava a lingua, embaraçado em manobra, e era d'estes homens determinados, mas sem deliberação em acção; comtudo, a fama que tinha adquirido nas suas extravagancias fez com que o preferissemos no commando, porque tambem não tinhamos assaz conhecimento das suas qualidades, pois nem ler nem escrever sabia, e assim o tenente e eu não duvidámos ceder-lhe, para evitar desordens, e ultimar o fim da nossa carreira. O tenente Lara, apesar das suas virtudes, não tinha nascido para a guerra; a sua constituição, e talvez educação, o desviavam da campanha: essa a razão porque não apparece nos combates, e se occulta n'esta memoria.

No em quanto José Borges do Canto e eu conquistavamos os povos de Missões, não estava o exercito ocioso; estando o coronel Manoel Marques em uma guarda abandonada pelos hespanhoes, denominada da Lagòa, teve aviso que além do rio Jaguarão apparecia um grande corpo de inimigos; despediu o capitão de milicias Antonio Rodrigues Barbosa, o capitão Antonio Xavier de Azambuja, e o alferes Hyppolito de Couto, com duzentos e quarenta homens de armas, a encontrar-se com o inimigo, e em dois dias de campanha se toparam. 

Entrando os ditos officiaes em consulta para fazerem aquelle ataque, oppôz-se a isto o capitão Azambuja, dizendo que ia primeiro observar em um alto se o inimigo trazia artilheria, e se retirou, levando comsigo a sua companhia. Conhecido pelos outros o medo, consultaram os dois officiaes, e entraram na acção, com tal valore intrepidez que venceram e destruiram o inimigo, ficando com a victoria d'esta acção o capitão Antonio Rodrigues Barbosa e o alferes Hyppolito de Couto. Houveram cincoenta mortos, setenta prisioneiros, entre estes dois capitães e um alferes; dos nossos só morreu um cabo de esquadra.

Depois d'esta acção fez o commandante Manoel Marques de Sousa marchar aquelle exercito para a fortaleza do Serro Largo, onde dissemos tinham-se ido incorporar as guardas hespanholas, quando abandonaram a sua fronteira; e chegando o dito coronel a fortaleza, combateu-a e tomou-a por uma capitulação, retirando-se a tropa hespanhola; entregaram-lhe aquelle forte com quatro peças, munição de guerra e cinco mil pezos duros em prata. A tropa que guarnecia esta fortaleza era o seu numero setecentos e sessenta homens, pois tinham sabido outros tantos d'esta mesma praça commandados pelo coronel Quintana, com o designio de ir atacar a fronteira do Rio Pardo, quo não teve effeito, como adiante se dirá.

No segundo dia d'esta conquista se pôz o nosso exercito em retirada para o rio denominado Jaguarão. Deixo aos politicos decidir sobre este modo de proceder. Os sete povos de Missões conquistados com um punhado de homens, e por meros soldados, acham-se debaixo dos dominios de S. A. R.; e aquella fortaleza do Serro Largo, conquistada por aquelle coronel, munido de artilheria, e com 800 homens, está possuida dos hespanhoes, que em poucos dias se senhorearam outra vez della. 

Retirado o nosso exercito, tanto que passou o rio Jaguarão para a nossa banda, o sobredito coronel licenciou a tropa, deixando só 200 homens de guarnição n'aquelle passo, commandados pelo tenente-coronel Jeronimo Xavier de Azambuja, e se retirou para o Rio Grande, por saber estava o general á morte. Este modo de obrar, de licenciar a tropa, e entrar o inimigo nesta mesma occasião de posse da fortaleza, que tinha perdido, foi digno de reparo a todos os prudentes, e ainda ao povo; seja o que fôr, eu não me proponho senão a dizer a verdade do que aconteceu.

Apossado o inimigo da fortaleza, adiantaram-se mais, até chegarão passo do Jaguarão; e como o achassem com os 200 homens que dissemos, parou o exercito inimigo, e mandou seu commandante, que era o marquez de Sobre Monte, dizer ao commandante d'aquelle passo, que era o referido Azambuja, que logo e logo lhe désse o passo livre: respondeu este por uma carta (pois o marquez tambem tinha escripto ) que o seu commandante e governador estava na villa do Rio Grande, que S. Exc. lhe concedesse tres dias para lhe dar resposta; e sendo-lhe concedidos, no mesmo instante deu parte ao coronel, e este para Porto Alegre ao brigadeiro Francisco João Rici, que commandava aquella repartição, enão se deu resposta ao marquez, como se promettêra; mas entretanto se enterrou o governador Sebastião Xavier, e tomou contado governo o brigadeiro Rici, e desceu immediatamente para a villa do Rio Grande, onde achou os povos em grande confusão, dispondo-se para passarem a S. José do Norte, antes que entrasse o inimigo; pois sabiam da retirada do exercito, e não havia providencias para encontrar o inimigo na fronteira; mas, com a chefia da do novo governo interino a esta villa, se pôz tudo em socego com a providencia que se veio dar. 
Fez immediatamente marchar para Jaguarão o coronel Marques, levando consigo as tropas do seu commando; fez marchar tropas a engrossar as guardas de Itaim, como tambem a do Alhardão, e no estreito da terra, entre a lagôa da terra e o mar oceano, pelo receio que havia de entraroinimigo a surprender a villa fez descer da fronteira do rio Pardo o segundo corpo do exercito, que commandava o tenente coronel Patricio José Corrêa da Camara, com ordens de acommetter o inimigo, ou a reunir-se ao exercito que commandava o coronel Marques, a quem tambem deu a mesma ordem. Depois que deu estas providencias, dispunha-se o mesmo brigadeiro a sahir para a campanha, quando n'esta occasião chegou a paz; tinha dado todas as providencias que podia dar um bom e experiente general.

Marchava o exercito da fronteira do Rio Pardo para Jaguarão, e só lhe faltavam dois dias de marcha, para se ver com o que commandava o coronel Marques, quando receberam os dois commandantes ordem do brigadeiro e governador que não executassem a ordem, que lhes tinha dado, de acommeter o inimigo; mas sendo avisado o brigadeiro que o marquez de Sobre Monte, general do exercito hespanhol, sem attenção ao beneficio da paz, perseverava no mesmo projecto, e em espirito armado, o dito brigadeiro escreveu nos termos seguintes: — Que elle havia ordenado ao exercito portuguez que passasse o rio Jaguarão para acompanhar o exercito de S. M. Catholica, que S. Ex. commandava até Montevidéo, mas que suspendêra a execução d'esta ordem, por observar a que tinha de S. A. R. o principe de Portugal, que havia celebrado com S. M. Catholica tratados de paz; mas que agora via S. Ex. perseverar na intenção de passar áquem de Jaguarão, sem attenção as mesmas razões da paz; e que isto lhe não parecia bem: com tudo, se S. Ex. era servido pôr em execução seu intento, podia vir; mas que advertisse que havia passar pelo dezar de não o concluir, em quanto as aguas do dito Jaguarão podessem levar os cadaveres dos seus soldados; e quando estes fizessem váo, por onde o exercito hespanhol passasse com as armas na mão para entrar nas terras que ao presente são da coroa de Portugal, e a pessoa de S. Exc. viesse na retaguarda, que tivesse a certeza que não havia voltar para o seu quartel, porque o acharia perpetuo, e todo o exercito do seu commando nas mesmas terras de Portugal.

Foi tal a aceitação d'esta carta que, com maduro e prudente conselho, cuidou o marquez em se retirar. Via uma carta cheia de razão, via que as tropas portuguezas anhelavam pela peleja, e via finalmente uma serie de continuados estragos, que haviam os hespanhóes experimentado; a sua retirada foi a decisão, e n'esta fórma finalizaram as suas campanhas as tropas d'esta fronteira, e ficou o rio Jaguarão por divisa, ou servindo de limite, ainda que podia ser pelo Serro Largo.

Em quanto fiz a viagem, que já disse, ao Rio Grande, esteve o Canto em S. Miguel até a minha volta; e os hespanhóes a reunirem tropas, para retomar os povos perdidos, e o sargento mor José de Castro Moraes, e a seu exemplo a mais tropa, cuidava mais em locupletar-se, que na conservação d'aquella conquista.

Chegando eu ao povo S. Miguel na volta do Rio Grande, tinha tomado conta do governo politico daquella nova conquista o sargento mór José de Saldanha, e retirou-se o sargento mór Moraes, o capitão Manoel Cancro, o capitão José de Anxita, o capitão Alexandre Guedes, e parte da tropa que guarnecia estes povos, e se recolheram para a fronteira do Rio Pardo, ao corpo de tropa que commandava o tenente Coronel Camara, onde n'esta occasião havia menos perigo; e pelos choques ou ataques que succederam se verá.

O sargento mór Joaquim Felix fez sua residencia em S. Nicolau, tres leguas distante do rio, e o commandante da tropa foi residir em S. Francisco de Borja, vinte leguas ao Sul do dito S. Nicolau, uma legua distante do rio; defronte de S. Francisco de Borja está o povo S. Thomé, além do rio um quarto de legua distante da fronteira hespanhola, e o rio por meio. Entre estes dois povos, no passo denominado S. Marcos, houve muitas hostilidades, e d'este povo a S. Borja para baixo a Sul tinhamos que defender mais de vinte leguas, que toda esta fronteira era invadida do inimigo, que vinham a ser mais de quarenta leguas de fronteira que deviamos defender só quatrocentos homens contra mais de dois mil, que já se tinham reunido para a reconquista dos povos. 
Fui com ordem de commandar a minha companhia com que tinha feito a conquista, por se achar doente o capitão, e ter ficado no povo S. Miguel. Tomei quarteis em S. Nicolau, e d'alli a poucos dias marchei em soccorro ao tenente Manoel dos Santos Pedroso, que se via atacado por um corpo numeroso de inimigos; e como achasse valor n'aquelle official para defender aquella entrada, e acudissemos com tempo, não pôde fazer seu desembarque.

Alguns dias ajudei a defender aquella entrada, no em quanto houve varios choques, que vou a referir.

No passo da Cruz, que dista para baixo de S. Borja mais de vinte leguas, foi atacado o tenente Francisco Carvalho da Silva, e o alferes João Antonio da Silveira, por um corpo de inimigos. Estes dois officiaes se portaram com muito valor,defenderam esta entrada com quarenta homens,e perderam um camarada n'este ataque; mas destruiram e venceram o inimigo, onde houve nove mortos e bastantes feridos da parte do inimigo.

Passados poucos dias, no passo de S. Marcos, entre S. Borja e S. Thomé, foram duas vezes as nossas guardas destruidas, mas sem perda de gente. Este lugar foi o mais invadido e perigoso, como se verá pelos casos acontecidos. Foi atacado no passo de S. Lucas o tenente Manoel dos Santos Pedroso por um corpo numeroso de inimigos; este lugar dista dezoito leguas acima de S. Francisco de Borja, em cujo ataque se distinguiu muito o alferes Manoel Padilha. Defenderam este lugar valorosamente com cento e sessenta homens, e não só destruiram o inimigo, onde morreram um ajudante de artilheria e dois soldados, como tambem lhes tomaram duas peças de artilheria que traziam. No passo de Santa Maria no Uruguay foi atacado o cabo de esquadra Bernardino da Silva; ainda que perdeu um camarada, defendeu esta entrada valorosamente.

Continuaram os choques no passo deS. Marcos; e foi atacado o furriel de milicias Victor Nogueira da Silva por um corpo demais de cem homens, achando-se só com quatorze; cercaram-o entre umas larangeiras, onde se entrincheirou, e sustentou este fogo em quanto lhe durou a munição. Durou este combate perto de uma hora, defendendo-se valoroso, na esperança de ser soccorrido da nossa tropa, que ouvia os tiros no povo de S. Borja; mas quando chegou o soccorro, já foi tarde; tinha-se-lho acabado a munição e mortos dois camaradas, e entregou-se prisioneiro de guerra, tendo feito grande destroço no inimigo, e já tinham dado á vela as barcas que o conduziam para além do rio Uruguay preso.

Muito sensivel nos foi este successo, pois eram os primeiros que se viam vencidos e presos n'aquella fronteira de Missões. Custou a suster as nossas tropas para que não seguissem a resgatal-os, entrando pelas terras do inimigo, onde eram grandes as forças a respeito das nossas: apesar de não termos n'este porto barcas, com tudo sempre houve seis homens que intentaram a passagem em uma pequena barca que descobriram, o occultamente se embarcaram uma noite para executar o seu façanhoso projecto. E como fosse o seu desembarque ao amanhecer, foram sentidos e atacados, onde elles sustentaram por algum tempo este fogo; e conhecendo a temeridade, se retiraram debaixo do mesmo fogo, depois deterem feito alguma hostilidade no inimigo, e sem perigar nenhum d'elles; mas, sendo seguidos por duas barcas, antes de vencerem o rio, iam sendo abordados, e certamente teriamos que sentir, pois estes homens eram de valor intrepido, e morreriam sem se entregar á prisão; mas valeu que já as nossas balas alcançavam, e sendo soccorridos foram salvos.

Os que entraram n'esta acção foram um furriel de milicias Raymundo de S. Thiago, e cinco soldados milicianos. Com tantos choques n'estas immediações de S. Marcos tive ordem para ir fornecer este lugar, onde foi preso o nosso heróe Victor. 
Cheguei alli com a minha companhia, que se compunha de quarenta praças; observei que além do rio havia um forte com artilheria, e que a sua praça de armas estava immediata: o desembarque para a nossa parte era inevitavel, pois tinha mais de uma legua de praia, e toda era desembarque. Vi o grande destroço que tinham feito as balas nas larangeiras, onde estiveram intrincheirados os nossos camaradas, antes de serem presos, e d'onde faziam o seu fogo. Formei minhas idéas; mandei vir sessenta indios, para correr com os avisos, armar barracas, abrir picadas, dzc. Retirei-me alguma cousa para a retaguarda, para me servir de forte um grande barranco do rio Camaquam, que faz barra no Uruguay, e allime acampei; ordenei as minhas guardas e sentinellas, as quaes eram visitadas por ruim, pois passamos noites em vigia com cartuxeira, espada cingida, e arma na mão, fazendo executará risca as ordens, com o exemplo que dava; lembrava-me dos descuidos em que tinha achado os inimigos, quando os tinha surprendido, e assim toda a cautela me parecia pouca. Haviam passados 39 dias do meu destacamento, quando, estando para amanhecer o dia 23 de Novembro, recebi parte quc estava passando o rio um grande corpo de inimigos. Tanto que recebi esta parte, mandei fazer signal; immediatamente se recolheu a cavallaria; puz toda a minha companhia a cavallo, e depois de ter passado revista, animei-os de novo, segurando-lhes que eu seria o primeiro em receber os golpes dos inimigos. Fiz aviso ao povo de S. Borja, onde tinhamos alguma tropa, e como não apparecesse o inimigo. até aclarar o dia, cuidei em buscal-o; e quando foi pelas 5 horas da manhãa estive na sua frente com 112 homens, pois já me tinha vindo soccorro. Topei-me com o inimigo na barra de Camaquam, sobre o barranco do rio Uruguay; coma minha chegada pôz-se em armas, e em linha de batalha com 100 homens na frente, e 50 nos flancos, e a sua retaguarda contra o rio, onde tinha o seu desembarque e munição de guerra.

No soccorro que me veio de S. Borja, vieram 6 officiaes, e como se achasse alli o capitão José Borges do Canto, a elle competia o commando d'esta acção, por ser de maior patente, e ás suas ordens me entreguei. Pozemo-nos em consulta, e como esta se demorava, e não se resolvia nada, pois tudo era fazer ver o grande perigo, as grandes forças do inimigo, a desigualdade do terreno, etc., com esta demora me separei d'estas conferencias, e appliquei-me a observar os movimentos do inimigo. Das cinco horas que alli chegamos até as dez não se ordenava este ataque: e observei que embarcavam tropas em soccorro, e se não atacavamos n'esta occasião, menos depois de terem passado maiores forças.

N'esta occasião offereci-me para entrar n'aquella acção, resoluto a dar a vida em defesa da patria e dos estados do nosso soberano, e sendo aceita a minha proposta pelo capitão e mais officiaes, entrei n'ella pela forma seguinte: — o tenente João Machado e o alferes André Ferreira, com trinta homens de cavallo na frente; o tenente Filippe Carvalho, com o alferes Manoel Carvalho e o alferes João Antonio, com outros trinta no flanco direito; os da frente fazendo fogo no mesmo terreno, a divertir e entreter os inimigos; e os do flanco direito para entrar na acção com o meu signal, ou para a abordagem das barcas. 
O capitão José Borges, com alguns camaradas de reserva, para acudir aonde visse mais perigo, e eu com quarenta homens, ataquei ao flanco esquerdo, que logo se pôz em confusão e fugida. Avanço rapido á retaguarda, e tomo a munição de guerra; passo ao flanco direito, e faço-lhe o mesmo. O tenente e alferes nomeados n'este posto, e o capitão com o meu signal entra na acção, e fazemos fogo á frente, onde os nomeados tenente e alferes sustentam o seu posto. Tanto no fogo que faziam, como com algumas escaramuças entretinham o inimigo. Todos incorporados fizemos fogo mais vivo, e ficam os inimigos vencidos e derrotados, e se declara a victoria d'esta acção por minha; publicada por aquelles honrados officiaes, como consta dos documentos que tive a honra de apresentar a S. A. R.

Estava além do rio Uruguay o governador d'aquella fronteira inimiga, que insistia em querer mandar soccorro; era o tenente coronel D Francisco Belmudes, e por estar immediato aquelle povo a S. Thomé, estava aquella praia coberta de povo, que tinha baixado alli a presenciar o ataque, e se retirou bem descontente com o destroço dos seus patriotas. Acabada esta gloriosa acção, recolhemo-nos para S. Borja, com setenta e tres prisioneiros, ficando no campo da batalha sessenta mortos, e da nossa parte houve tres mortos e quatro feridos: o despojo consistiu em duzentas armas de fogo, algumas espadas, e bastante munição de guerra.

Este foi o ultimo ataque que tivemos n'aquella fronteira de Missões; logo depois nos chegou a paz, e na declaração d'ella vi grande desgosto e sentimento nas tropas. D'esta forma ficaram aquelles sete povos e o seu grande territorio annexo ao dominio de S. A. R., ficando por divisa o rio Uruguay, tomados e defendidos sem despeza do estado; mas sim á custa de seus vassallos, não obstante ter-se reunido n'aquella fronteira mais de dois mil homens, commandados pelo coronel Espíndola. vindos da cidade d'Assumpção de Paraguay.

Ficou o sentimento aquelles vassallos de Portugal de não ter tempo de levar ao inimigo até além do Rio da Prata, em que lhe não acham difficuldade alguma, senão a vontade do seu soberano, e aceitação de seus serviços, para serem remunerados. Chegou tambem a ordem para as tropas se retirarem, dirigida pelo governador; encontraram ao tenente Camara, com o corpo de tropas que commandava, distante do acampamento de Jaguarão dez leguas.

Foi indizivel a pena de toda aquella tropa com a certeza da paz, pois via a sua retirada sem fazer acção alguma, e com a lembrança de que tivera o inimigo a vista, e não tivéra o gosto de medir as armas; foram aquelles setecentos homens que dissemos que sahiram do Serro Largo, para atacar a fronteira do rio Pardo, commandados pelo coronel Quintana.

Estava aquella columna que commandava o tenente coronel Camara na guarda denominada - S. Francisco - duas leguas de Batovi, quando teve parte, pelos nossos exploradores d'aquella campanha, que aquelles setecentos homens, que fica dito, vinham com desígnio de entrarem. Immediatamente pôz-se em marcha, e o foi encontrar, o qual encontro, foi no passo denominado - Rosario- do rio de Santa Maria: estiveram quasi á falla, e chegou o exercito inimigo a atirar alguns tiros de peça; mas estava crescido este arroio, e era ja tarde, e por esta razão não tentaram a passagem, deixando-a para o dia seguinte. 
Naquella noite perdeu o exercito inimigo o valor, e se pôz em retirada. O tenente coronel Camara, commandante da nossa tropa, não lhe picou a retaguarda,o que foi muito sensível áquella; com tudo e é de louvar que naquella campanha se conservasse com os incommodos das suas molestias, andando sempre entre os medicamentos. 
As tropas que guarneciam a fronteira dos povos de Missões tambem tiveram ordem para se retirar, depois da publicação da paz; e assim finalizou a guerra n'aquella capitania. Eu sou testemunha ocular dos factos, ou da maior parte d'elles, que n'esta Memoria relato; e deixo de expender circumstancias minimas por não ser diffuso, e cançar a paciencia do meu leitor das acções gloriosas que se manobraram nos povos de Missões, em que tive parte, ou fui principal agente. Fiz patente a S. A. R., em requerimento que offereci, e em todo o tempo provarei a verdade dos feitos até com os mesmos hespanhoes.

Lisboa, 18 de Setembro de 1806. — Gabriel Ribeiro de Almeida.

REVISTA TRIMENSAL DE HISTORIA E GEOGRAFIA ou JORNAL DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRASILEIRO, N.º 17, Abril de 1843.
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